terça-feira, 4 de novembro de 2008

Três Realidades Incontestáveis e Uma Dramática

Nos últimos dias tenho meditado no capitulo seis do livro do profeta Isaías que trata de uma experiência extraordinária vivida por esse profeta. O próprio Isaías descreve os detalhes dessa experiência que ocorre em um momento absolutamente significativo da história de Judá e Jerusalém: “No ano da morte do rei Uzias”, diz o profeta, “eu vi o Senhor assentado num alto e sublime trono.”

Uzias foi um dos principais reis de Judá, tendo reinado por cinqüenta e dois anos em Jerusalém. Durante esse período Uzias tornou-se um rei renomado entre as nações vizinhas em virtude das obras que realizara, do poderio bélico de seu exército, da forma como fortaleceu as atividades agro-pecuárias e da forma estratégica como governava e administrava seu reino.

No ano da morte do renomado rei, Isaias vislumbra três realidades incontestáveis: A primeira é que DEUS É O SENHOR. Enquanto a morte do rei Uzias apontava para a condição humana, pois por mais significativa e realizadora que seja a existência, por mais empreendedora e prospera a nossa vida, esbarramos na nossa finitude. Em nítido contraste está a infinitude e grandeza da Soberania de Deus. Seu reino é sempiterno! Ele está acima de toda ou qualquer regência humana. Ele governa e administra a história dos homens. Deus não perdeu o controle da história, o homem é quem se perdeu na história de Deus.

A segunda realidade incontestável na experiência relatada pelo profeta Isaías é que além de Senhor, DEUS É SANTO. Na visão de Isaías os serafins de rostos e pés cobertos por suas próprias asas, diante da glória de Deus, clamavam uns para os outros, dizendo: “SANTO, SANTO, SANTO É O SENHOR”.

A terceira realidade incontestável é, inevitavelmente, resultado da constatação das duas primeiras: SOMOS PECADORES! Diante da percepção avassaladora da soberania e da santidade de Deus, não se poderia esperar outra atitude de Isaías, senão dizer: “AI DE MIM! ESTOU PERDIDO!

Existe um padrão moral que transcende ao padrão inerente ou próprio de cada ser humano como criatura de Deus. A consciência moral de que somos pecadores pode ser imanente com base nos pressupostos culturais e nos valores desenvolvidos no processo de constituição da subjetividade humana, ou até mesmo pela capacidade dada por Deus de distinguirmos o bem e o mal. Porém, a convicção de que estamos perdidos advém, fundamentalmente, da consciência da santidade divina em contraste com nossa insuficiência para nos purificarmos.

Enfim, saber que ELE É O SENHOR, que ELE É SANTO e que SOMOS PECADORES não é nenhuma novidade. O grande problema é que, por serem realidades tão óbvias, não as levemos tão a sério. É exatamente aí que nos deparamos com uma realidade dramática: ESTAMOS NOS TORNANDO INDIFERENTE A TUDO ISSO.

O autonomismo e o hedonismo do nosso tempo têm diluído a verdade bíblica do senhorio de Cristo. A vivência cristã contemporânea tem deixado de ser Cristocêntrica para torna-se antropocêntrica. Muitos que se denominam “servos de Deus” são na realidade “senhores de Deus” impetrando ordens e decretos àquele que é O SENHOR DOS SENHORES.

O relativismo do nosso tempo também tem dado a sua contribuição no que tange a uma nova configuração dos padrões de vida santa. Novos Paradigmas têm neutralizado valores absolutos das Escrituras tornando cada vez mais difícil fazer a distinção entre o justo e o perverso, entre o que serve a Deus e o que não serve. Não nos importamos, nem nos motivamos a ser santo como Ele é SANTO. Também não nos desesperamos mais com o pecado. Sabemos até que somos pecadores, no entanto, não lamentos os nossos pecados. (Aliás, falar sobre pecado tem se tornado um tabu em muitos dos nossos púlpitos – “não é politicamente correto”). Nossos olhos estão áridos, nosso coração empedernido. Não há mais confissão de pecados. Nossos rostos não ficam mais enrubescidos de vergonha.

Quando Isaías clama: ”Ai de mim! Estou perdido! Porque sou homem de lábios impuros, habito no meio de um povo de impuros lábios, e meus olhos viram o Rei, o Senhor dos Exércitos!” Ele descreve a atitude de alguém que de fato viu o Senhor com seus próprios olhos, de alguém que teve uma experiência pessoal e insubstituível com o Deus essencialmente Santo.

Isaías tem a nítida noção da incomunicabilidade do pecado com o Deus Santo. A resposta de Deus para a insuficiência do profeta de auto purificar-se estava no altar. O altar aponta para o sacrifício de Cristo, o “Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo”, aquele que veio buscar e salvar o que estava perdido. A brasa tirada do altar aponta para o seu Espírito que a nós por Ele foi outorgado.
No amor do Pai.

quinta-feira, 5 de junho de 2008

O Extraordinário, o Ordinário e a Ordem de Deus

A vida nos reserva situações que desafiam a nossa fé e que coloca em xeque nossa confiança na provisão e no cuidado divino.

É absolutamente fácil declarar e expressar nossa confiança em Deus quando tudo nos está favorável, quando nenhuma intempérie da vida está nos afetando.

É fácil, extremamente fácil, como diz a canção do Jota Quest, falarmos palavras de louvor e exaltação a Deus quando não se está vivendo nenhum tipo de restrição e / ou privação. No entanto, somos desafiados a agir e reagir da mesma forma, quando a situação não se configura da maneira como a gente gostaria. São nestes momentos críticos da existência que temos a oportunidade de experimentarmos Sua Providência.

Os milagres e a providência de Deus se manifestam na nossa vida de forma extraordinária, assim como ocorreu com o profeta Elias ao ser alimentado por corvos, junto à torrente de Querite, quando a seca e a escassez de alimentos afetavam o povo de Israel.

Ser alimentado por corvos duas vezes por dia (pela manhã e ao anoitecer) é algo EXTRAORDINÁRIO! Afinal, corvos são aves que se alimentam de outros animais em decomposição, além de serem extremamente egoístas, pois, não dividem seu alimento com outras aves e ainda deixam de alimentar seus próprios filhotes.

Em outra ocasião, quando as águas da torrente do Querite se secaram, Deus o orientou Elias a sair dos termos de Israel e ir para Sarepta, cidade fenícia, onde seria alimentado por uma mulher viúva.

Ser alimentado por corvos é EXTRAORDINÁRIO. Ser alimentado por uma viúva é ORDINÁRIO.

Em ambos os casos, considerando as circunstâncias, Elias experimentou o milagre de Deus. A providência divina se manifestou em sua vida de forma extraordinária, através de algo incomum, por meio de uma ação que transcendia o curso natural das coisas. Por outro lado, Elias também experimenta a providência divina de forma ordinária, através de algo comum, por meio de uma ação humana, essencialmente natural, que está na ordem usual das coisas.

Tanto na forma extraordinária quanto na ordinária percebe-se a providência e a soberania de Deus, justamente no fato de que, nas duas situações, houve a ORDEM de Deus. É Deus quem ordena os corvos e a viúva para que alimentem o seu profeta: “... ordenei aos corvos que ali mesmo te sustentem.” (1RS 17:4) e, ainda: “... ordenei uma mulher viúva que te dê comida.” (1RS 17:9).

O problema é que muitas vezes nossa expectativa se concentra exclusivamente no extraordinário, no sobrenatural e não percebemos os milagres ordinários de Deus em nosso cotidiano.

Às vezes nos apegamos de tal forma às experiências sobrenaturais do passado que nos fechamos aos milagres ordinários de Deus em nossa vida no dia a dia. Assentamos-nos junto à torrente seca do Querite, olhando exclusivamente na direção das nuvens, esperando que a “comida caia do céu”, enquanto Deus está nos mandando caminhar na direção do ordinário.

Quando estamos debaixo da ordem de Deus, Deus ordena o seu milagre extraordinária e/ou ordinariamente. Vivemos o sobrenatural naturalmente e o natural sobrenaturalmente.




quarta-feira, 4 de junho de 2008

A Linha da Vida

Um dia alguém disse que a linha da vida oscila entre altos e baixos, como naqueles aparelhinhos usados nas UTI’S hospitalares. Há momentos que experimentamos circunstâncias eminentemente favoráveis, e outros que nos deparamos com situações completamente distintas.

A verdade é que nessa montanha russa da vida, por vezes, somos surpreendidos por fatos que afetam nossas estruturas e que desafiam nossa capacidade de lidar com os mesmos de forma responsável e equilibrada.

Definitivamente, a vida não é um parque de diversões. Aliás, para muitos a vida tem sido um verdadeiro campo de batalha. Um lugar de conflitos e de insegurança.

Não são poucos os que caminham nessa vida como se estivessem pisando num campo minado, amargando na alma a fatal expectativa de que alguma coisa trágica, a qualquer momento, possa acontecer.

A vida pode não ser uma Disneylândia, um lugar de fantasia e de sonhos perfeitos. No entanto, “Deus é o nosso refúgio e fortaleza, socorro bem presente nas tribulações”.(Sl 46:1)

Esta foi uma afirmação dos filhos de Corá e pode ser a nossa também!

O problema é que, na maioria das vezes, não conseguimos perceber a presença de Deus quando estamos em alguma situação adversa. Achamos que tudo oscila juntamente com as nossas emoções, inclusive, Deus.

Diante das dificuldades, temos uma enorme facilidade de tornar pequena a nossa fé. E, como os filhos de Israel, após acamparem-se em Refidim, onde não havia água para o povo beber, murmuramos e questionamos: “Está o Senhor no meio de nós ou não?” (Ex. 17:7).

Talvez com a intenção de enfatizar uma verdade fácil de ser esquecida, os filhos de Corá repetem no versículo onze do salmo 46, exatamente o que já haviam falado no versículo sete: “O Senhor dos Exércitos está conosco; o Deus de Jacó é o nosso refúgio”.

Sentindo ou não a sua presença, no monte ou nos vales, na alegria ou na dor, a verdade é que Ele não nos deixa sozinhos. Como diz a canção: “És Deus de perto, e não de longe, nunca mudaste, Tu és Fiel”.

PAZ!

quinta-feira, 29 de maio de 2008

Paradoxo - Uma Reflexão sobre a Alegria e Sofrimento



Nestes últimos dias tenho pensado sobre duas perguntas feitas por Tiago no capitulo cinco de sua epístola.

A primeira pergunta é: “Está alguém entre vós sofrendo?” A segunda pergunta aponta para uma realidade diametralmente oposta a primeira: “Esta alguém alegre?”.

Estas duas perguntas indicam duas realidades antagônicas, mas, que em muitos momentos tornam-se absolutamente entrelaçadas. Sendo percebidas simultaneamente na experiência da comunidade da fé e, paradoxalmente, também na nossa experiência pessoal.

Já ouvi alguém dizer ou li em algum lugar que o ser humano é um ser que goza e sofre, como se gozo e sofrimento fossem realidades inevitáveis à vida de qualquer pessoa.

Sendo assim, as perguntas de Tiago tornam-se vinculadas a respostas aparentemente óbvias. No entanto, acredito que as perguntas feitas por Tiago atingem uma esfera de respostas muito mais abrangente e profunda que as instintivamente dadas por nós.

Acredito que suas perguntas estão mais carregadas de significado que o nosso senso comum possa de forma imediata depreender.

Talvez você, caro leitor, não concorde comigo. Aliás, ficarei feliz se assim for. Pois, quando lia estas perguntas, de forma egoísta, sempre pensava que elas sempre se referiam exclusivamente a mim mesmo. Até então, não havia pensado numa perspectiva comunitária.

Não pensava na hipótese de que, simultaneamente, a minha alegria ou ao meu sofrimento, alguém dentre a comunidade pudesse estar experimentando uma realidade completamente distinta da minha.

Depois de um tempo passei a pensar que talvez Tiago quisesse muito mais que, como dizem os analistas institucionais, avaliar como estava o ambiente institucional e estimular a oração e a fé à comunidade dos santos.

Talvez em meu egocentrismo não tenha entendido a necessidade de aprender a perceber o outro de forma empática. Talvez não tenha compreendido de forma prática o que Paulo falou a respeito do corpo de Cristo, quando disse que se um membro sofre ou é honrado, todos os que fazem parte desse corpo, compartilham do mesmo sentimento.

As perguntas de Tiago podem nos levar a entender, dentre outras coisas evidentes no texto, que somos desafiados, ainda que pareça ou seja realmente paradoxal, a chorar com os que choram e se alegrar com os que se alegram.

quinta-feira, 1 de maio de 2008

Quem és? Um Problema de Identidade.




“Bem sei quem és: O Santo de Deus!”.

Esta foi uma declaração feita por um homem possesso de espírito imundo dentro de uma sinagoga em Cafarnaum, onde Jesus havia entrado para ensinar aos que ali se encontravam.

Conforme relatado em Marcos 1:21-28, aqueles que o ouviam maravilhavam-se da sua doutrina, porque os ensinava como quem tem autoridade, diferentemente dos escribas. É impressionante como hoje em dia se percebe no cenário evangélico brasileiro uma mudança tão drástica de postura diante da relevância do ensino das escrituras.

Muitos dos que se dizem evangélicos deixaram de maravilharem-se com a Palavra. Note-se o esvaziamento das escolas bíblicas dominicais. O povo da bíblia se transformou no povo da música. Os evangélicos deixaram de ser “os bíblias” para ser “gospel”. Os ministros de louvor se transformaram em artistas gospel, compondo e cantando músicas cheias de heresias. (sem Palavra, não se poderia esperar outra coisa). Os adoradores se transformaram em tietes dos “astros da música gospel”. O povo deixou de ir ao culto pra ouvir a Palavra de Deus, para buscar entretenimento. Deixaram de se maravilhar com a Palavra, com o ensino das Escrituras, para maravilharem-se com as superapresentações musicais.

Quem és? Será que a igreja evangélica brasileira contemporânea possui uma identidade que reflete os princípios da Palavra? Será que o relativismo dessa geração não tem corrompido os fundamentos da sã doutrina? Qual a diferença entre o ensino de Jesus e dos escribas? Ele ensinava com autoridade. Sua autoridade não era posicional, pois não estava atrelada ao status de uma posição diante da sociedade. Sua autoridade estava diretamente relacionada a sua identidade pessoal. Quem Ele era (o Santo de Deus) é que fez toda diferença em seu ensino e no confronto espiritual.

Paulo diz que Cristo amou a igreja e a si mesmo se entregou por ela, para que a santificasse, tendo-a purificado por meio da lavagem de água pela palavra, para a apresentar a si mesmo igreja gloriosa, sem mácula, nem ruga, nem coisa semelhante, porem santa e sem defeito. (Ef. 5:25-27).

Precisamos voltar a centralidade da Palavra. Voltarmos a ser respeitado como o povo que vive de acordo com a santa Palavra de Deus. Como povo que tem autoridade reconhecida não somente por pregar a Palavra, mas, sobretudo por viver aquilo que prega.

No Amor do Pai.

Cláudio Alvares